Santos, benzedeiras e milagres: a tradição espiritual que chegou até nós

Antes de existirem tutoriais nas redes sociais, antes de encontrarmos “rituais” em qualquer pesquisa na internet, antes de haver livros sobre espiritualidade em cada livraria, já existiam mulheres que sabiam rezar. Mulheres que conheciam determinadas orações. Que sabiam quando recorrer a determinado santo. Que conheciam as palavras, os gestos, as velas, as ervas, a água, o azeite e os símbolos.

Mulheres a quem se recorria quando alguém estava doente, quando uma criança tinha “quebranto”, quando havia mau-olhado, quando a vida parecia bloqueada ou quando simplesmente se sentia que alguma coisa não estava bem. E muitas dessas mulheres eram benzedeiras.

Mas existe uma parte desta história que, muitas vezes, esquecemos: grande parte deste conhecimento espiritual popular português foi profundamente marcado pelo catolicismo.

E é precisamente aqui que começa uma história que me é particularmente próxima. Porque o trabalho espiritual que desenvolvo não nasceu de criar novas “mezinhas” ou de inventar rituais. Nasceu do conhecimento de uma tradição: de orações, de símbolos, de santos, de práticas espirituais, de uma forma de compreender a relação entre o ser humano, o sagrado e aquilo que não conseguimos ver. E é nesse sentido que me considero herdeira de um conhecimento espiritual tradicional, que estudo, pratico e procuro preservar com consciência e responsabilidade.

A religiosidade popular portuguesa é muito mais profunda do que parece

Quando falamos de catolicismo, pensamos muitas vezes na Igreja, na missa, nos sacramentos, nos sacerdotes e na liturgia. Mas existe outro universo: o da religiosidade popular. É o universo das promessas, das peregrinações, das velas acesas, das orações ensinadas pelas avós, dos santos aos quais se pede proteção, das imagens colocadas em casa, dos objetos benzidos, dos ex-votos, das graças recebidas e das histórias de pessoas que dizem: “Eu pedi ao santo e fui atendido.”

A investigação histórica e antropológica mostra que esta relação entre povo e santos tem raízes profundas em Portugal. Existem estudos sobre a devoção às relíquias de santos em território português que demonstram a importância que estas práticas tiveram na história religiosa do país.

E os estudos sobre as devoções populares mostram também que santos específicos foram associados, ao longo do tempo, à proteção contra determinadas adversidades, doenças, pragas e outros infortúnios. Portanto, quando uma pessoa recorre a um santo para pedir proteção ou cura, não estamos perante uma moda espiritual contemporânea. Estamos perante uma tradição com séculos.

E onde entram as benzedeiras?

Entram precisamente nesse espaço onde a religião deixa de ser apenas institucional e passa a fazer parte da vida quotidiana. A benzedeira conhece uma forma popular de oração, aprendeu palavras, aprendeu gestos, aprendeu símbolos, aprendeu a reconhecer determinados males dentro da visão espiritual da comunidade onde vive. E aprendeu que, muitas vezes, uma necessidade se resolvia com uma determinada oração ou um determinado santo.

A investigação antropológica realizada em comunidades portuguesas descreve precisamente este universo de práticas mágico-religiosas de cura e proteção, no qual aparecem benzedeiras, curandeiros e outros especialistas populares. É particularmente interessante perceber que muitos dos elementos utilizados nessas práticas são profundamente católicos:

A cruz.
O rosário.
A água benta.
A vela.
O azeite.
As imagens dos santos.

Não são elementos importados de uma espiritualidade “alternativa”. Fazem parte da própria cultura religiosa portuguesa e foram incorporados pelas práticas populares.

O santo não era apenas uma imagem na parede

Para quem vive esta tradição, um santo não é simplesmente uma representação religiosa: é uma presença espiritual. É alguém a quem se recorre, a quem se pede, a quem se agradece, a quem se faz uma promessa e, sobretudo, alguém cuja intercessão se procura.

É importante fazer aqui uma distinção. Na teologia católica, os santos não são deuses. A lógica é a da intercessão: o fiel pede a intercessão do santo junto de Deus.

Mas a religiosidade popular desenvolveu uma relação muito mais concreta com essas figuras. Cada santo foi ganhando uma identidade própria no imaginário coletivo. E assim surgiram associações entre determinados santos e determinadas necessidades.

Santo António.

São Bento.

São Sebastião.

São Brás.

Santa Bárbara.

Nossa Senhora.

E tantos outros.

Cada um carregando histórias, símbolos, atributos, devoções e tradições próprias. É por isso que ainda hoje ouvimos pessoas dizer: “Este é o santo para isto.” E essa frase aparentemente simples contém séculos de memória espiritual.

As benzedeiras conheciam aquilo que não estava nos livros

Esta é uma das partes desta tradição que mais me fascina: grande parte deste conhecimento foi transmitida oralmente, de mulher para mulher, de mãe para filha, de avó para neta, de alguém mais experiente para alguém que demonstrava sensibilidade ou capacidade para aprender.

Não era necessariamente um conhecimento escrito. Era um conhecimento vivido. Aprendido através da observação, da repetição, da experiência, da oração e da própria relação com o sagrado.

É por isso que podemos falar de uma verdadeira memória espiritual popular. Um património que não está todo guardado nos livros. Está também na memória das pessoas. Nas orações que ainda hoje algumas famílias sabem de cor. Nos gestos que algumas pessoas aprenderam na infância. Nas formas de pedir proteção. Nas promessas. Nas peregrinações. Nos santos que continuam a ser invocados.

O milagre da fé não deve ser confundido com uma promessa de cura

Aqui faço questão de ser muito clara. Respeitar esta tradição não significa prometer milagres. Não significa dizer a alguém que uma oração substitui um médico. Não significa garantir que determinado ritual vai resolver uma doença. E muito menos significa alimentar o medo das pessoas. Existe uma diferença enorme entre trabalhar espiritualmente e fazer promessas irresponsáveis.

A própria Igreja Católica possui procedimentos específicos para investigar alegados milagres associados às causas dos santos. Ou seja, mesmo dentro da própria tradição católica, existe uma distinção entre uma experiência pessoal de graça e aquilo que pode ser reconhecido oficialmente como milagre. Essa distinção é importante. Porque a espiritualidade deve caminhar com responsabilidade.

E é aqui que entra o meu trabalho

É precisamente neste ponto que o meu trabalho se cruza com esta tradição. Eu não olho para estas práticas como uma coleção de “receitas mágicas”. Não acredito que espiritualidade seja simplesmente pegar numa vela, dizer três palavras e esperar que a vida se transforme. Existe muito mais por trás de um trabalho espiritual:

Existe intenção.

Existe oração.

Existe conhecimento.

Existe simbolismo.

Existe relação com o sagrado.

Existe preparação.

Existe discernimento.

E existe, sobretudo, a pessoa que está diante de nós.

E o meu trabalho em contexto de igreja e com esta tradição espiritual nasceu desta relação profunda com as orações, os santos e os rituais que fazem parte da nossa memória espiritual e aos quais fui iniciada pela minha Mestre em 2010.

Considero-me herdeira deste conhecimento.

Não no sentido de reproduzir mecanicamente aquilo que outros fizeram. Mas no sentido de reconhecer que recebi, estudei, pratiquei e aprofundei um património espiritual que merece ser tratado com respeito. Conheço a força que determinadas orações carregam. Conheço o simbolismo dos santos. Conheço os rituais tradicionais. Conheço a linguagem espiritual através da qual tantas gerações procuraram proteção, cura, orientação e abertura de caminhos. E é esse conhecimento que hoje integro no meu próprio trabalho espiritual.

A tradição não precisa de ser copiada. Precisa de ser compreendida.

Esta é talvez uma das maiores diferenças entre aquilo que faço e aquilo que encontramos atualmente nas redes sociais. Hoje encontramos milhares de pessoas a publicar:

“Faça isto.”

“Acenda esta vela.”

“Coloque isto debaixo da cama.”

“Diga esta oração três vezes.”

“Faça este banho.”

Como se o mundo espiritual funcionasse através de receitas universais.

Mas não funciona assim. Um ritual tradicional tem contexto. Uma oração tem intenção. Um santo tem uma história. Um símbolo tem significado. E uma pessoa tem uma realidade própria.

Dos santos das nossas avós à espiritualidade de hoje

Talvez seja este o verdadeiro legado das benzedeiras. Não simplesmente os rituais. Não simplesmente as orações. Mas a capacidade de olhar para o sofrimento humano e reconhecer que, para além do corpo, existe uma dimensão emocional, simbólica e espiritual.

A antropologia demonstra precisamente como, nas práticas populares de cura em Portugal, a fé, os santos, as benzedeiras e outros agentes espirituais foram integrados numa compreensão mais ampla da doença e da cura. E esta realidade não desapareceu. Transformou-se.

É possível respeitar a ciência e, simultaneamente, compreender a importância espiritual das tradições. É possível procurar ajuda médica quando é necessário e continuar a rezar. É possível compreender o valor cultural das benzedeiras sem romantizar todas as suas práticas. E é possível trabalhar espiritualmente sem transformar a fé em medo. Porque espiritualidade não deveria significar viver assustado. Deveria significar compreender melhor aquilo que somos, aquilo que sentimos e a forma como nos relacionamos com o mundo visível e invisível.

É também por isso que, no meu trabalho, não reproduzo “receitas mágicas” encontradas na internet. Procuro compreender a pessoa. O seu momento. O seu campo energético. As suas necessidades. A sua relação com a espiritualidade. E, quando existe uma dimensão espiritual a trabalhar, fazê-lo com respeito, consciência e responsabilidade e com o apoio seguro da tradição espiritual do nosso povo.

Hoje podemos ter outras palavras, outras necessidades, outras formas de procurar ajuda, mas continuamos a procurar sentido. Continuamos a procurar proteção. Continuamos a procurar respostas. Continuamos a rezar. Porque há coisas que pertencem à nossa memória espiritual mais profunda.

Se sentes que existe uma dimensão espiritual da tua vida que precisa de ser compreendida com maior profundidade, talvez seja esse o momento de procurar um acompanhamento que vá além das receitas prontas.

No meu trabalho, acompanho cada pessoa a partir da sua realidade, procurando compreender o que está a acontecer e qual o caminho espiritual mais adequado ao seu momento. O primeiro passo não é fazer mais um ritual, é compreender o que precisa verdadeiramente de ser trabalhado. E é aí que começa o verdadeiro caminho.

Conhece o meu trabalho e os diferentes caminhos de acompanhamento espiritual através do meu site.

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